sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O SEXO E OS BLUES - Breves Apontamentos

Well, I'm a king bee
Buzzin' around yo' hive
Well, I'm a king bee
Buzzin' around yo' hive

                Slim Harpo, King Bee

Os blues estão ligados à sexualidade, como o feijão preto à picanha. Este género musical surgiu entre finais do século XIX e inícios do século XX, numa região dos Estados Unidos da América profundamente arreigada ao racismo e à supremacia branca: o Sul. Foi no cerne da política Jim Crow, de profunda segregação racial, que surgiram os primeiros bluesmen, isto é, indivíduos sem eira nem beira que viam na música uma fuga ao duro trabalho no campo, nomeadamente a apanha do algodão, e que, dezenas de anos antes do estrelato rock, sentiam que como músicos podiam mais facilmente conquistar mulheres. O corpus de letras ‘blues’ é riquíssimo, não só pela vastidão dos temas, como também pelo seu mais ou menos incipiente uso da metáfora, ou outras questões linguísticas como as mensagens encriptadas, isto é, só perceptíveis às pessoas da comunidade negra. Quer fosse a dureza da vida no campo, o escape da bebida, as condições de vida dos negros no sul dos Estados Unidos, o racismo, catástrofes natuarais, sobre tudo se falava nas letras dos primeiros bluesmen.
Não é despiciendo lembrar que um dos clichés racistas que mais propalados foram durante a perseguição racial nos Estados Unidos, prendia-se com o carácter profundamente sexuado e promíscuo dos negros. Não nos esqueçamos que muitos negros (demasiados) foram barbaramente assassinados (a técnica mais usada era a do linchamento, consequente banho de alcatrão quente e penas de aves, e, por vezes, a mutilação do órgão sexual). Isto acontecia muitas vezes porque simplesmente alguém na comunidade branca não gostava do olhar de um negro, ou porque se insinuava, com ou sem motivo, que determinado negro mantinha relações com uma branca.  Os negros (geralmente os mais velhos) que punham o chapéu na mão em sinal de respeito e desviavam o olhar do branco, tinham mais hipóteses de escapar. O cúmulo da hipocrisia era que as mulheres negras – pertencentes a uma raça dita inferior e execrável - eram muito cobiçadas pelos brancos que, supostamente, deveriam sentir nojo só pela proximidade. A carne falava mais alto...fala sempre mais alto.
Feita a contextualização, chegamos ao que interessa, ou seja, o carácter sexual de algumas letras de bluesmen consagrados. O intuito deste artigo não é dar conta da riqueza de temas das letras dos blues, mas sim fazer referência a um tema recorrente: a sexualidade. Assim, o auto-elogio das proezas sexuais e a infidelidade estão entre os temas mais tratados.
Comecemos pelo tema da premonição (muito recorrente nos blues, não estivesse a comunidade negra associada à baixa escolaridade e muito ligada a rituais africanos ancestrais) de que um miúdo está destinado a ser 'levado da breca' e irá levar as mulheres à loucura; é o que temos na primeira estrofe de “Hoochie Coochie Man” de Muddy Waters (traduzindo para um português convencional, poder-se-ia dizer que significa ‘homem danado para a brincadeira’, leia-se, coito:
The gypsy woman told my mother
Before I was born
I got a boy child's comin'
He's gonna be a son of a gun
He gonna make pretty women's
Jump and shout
Then the world wanna know

What this all about
But you know I'm him
Everybody knows I'm him
Well you know I'm the hoochie coochie man
Everybody knows I'm him
Neste excerto da estrofe seguinte não restam dúvidas de que ele é o ‘lover man’ ideal:
I'm gonna make you girls
Lead me by my hand
Then the world will know
The hoochie coochie man
O auto-elogio é também bastante visível numa música aparentada rítmica e melodicamente com a anterior: I’m a Man, de Bo Diddley. Nesta, tal como em muitas outras letras, a proeza vem associada ao tempo de duração do coito. Assim, Diddley não só afirma que é capaz de aguentar uma hora de coito, como afirma inequivocamente que essa hora será de gozo total e irresistível: (as mulheres bem podem começar a fazer fila!)
All you pretty women,
Stand in line,
I can make love to you baby,
In an hour's time.
The line I shoot,
Will never miss,
The way I make love to 'em,
They can't resist.
Outra música que é um standard dos rhythm & blues, "Sixty-minute man", apresenta também uma estrutura imagética relacionada com a proeza sexual do sujeito:
Look a here girls I'm telling you now
They call me "Lovin' Dan"
I rock 'em, roll 'em all night long
I'm a sixty-minute man
O 'eu' não só se apresenta como um amante que faz perdurar uma relação durante uma hora, como ainda faz subentender que tem capacidade para ter mais do que uma relação, quando afirma: " I rock 'em, roll 'em all night long". O termo rock'n'roll é também curioso pois ainda antes de ter sido cunhado pelo DJ Alan Freed na explosão do rock nos anos cinquenta, era já um termo usado para se referir ao acto sexual. Os próprios termos 'rock' (movimentos verticais) e 'roll' (movimentos circulares) podem sugerir o coito. Não foi à toa que, quer pelo facto de ter sido tocada por negros, no início, quer pelo conteúdo 'risqué' (abordagem assanhadamente sexual, mas subliminar) de muitas letras, quer pelos movimentos dos dançarinos, tidos como lascivos, os R&B e o R&R foram banidos das rádios não regionais, até que o fenómeno se tornou tão incontornável (os miúdos brancos ficavam loucos com aqueles ritmos) que a estratégia comercial passou a ser, 'se não podes combatê-los, junta-te a eles. Daí que muitos artistas brancos tenham pegado nesses standards (Pat Boone é apenas um exemplo) para dar um toque menos perigoso. O que os pais não sabiam era que a capa do disco podia ser de um jovem branco tipo ‘genro ideal’, mas o que estava a rolar no gira-discos era o original... provavelmente o Little Richard a gritar como um possuído.
Nos versos seguintes, o 'eu' aparece com a auto-confiança gabarola habitual dizendo que se não acreditam, venham experimentar; é como se estivéssemos no mundo da publicidade, ou seja, 'leve este produto e não se arrependerá'.
If you don't believe I'm all that I say
Come up and take my hand
When I let you go you'll cry "Oh yes,"
"He's a sixty-minute man"
A tal hora de coito aparece repartida em quatro partes. Bem feitas as contas, há 15 minutos de beijos, 15 minutos de 'brincadeira', 15 minutos de apertos e 15 minutos de êxtase(!).

There'll be 15 minutes of kissing
Then you'll holler "please don't stop"
There'll be 15 minutes of teasing
And 15 minutes of squeezing
And 15 minutes of blowing my top
Nesta mesma música o 'eu' apresenta-se como uma espécie de consolador de mulheres mal-casadas:

If your man ain't treating you right
Come up and see ol' Dan
I rock 'em, roll 'em all night long
O poeta e filósofo americano Emerson ficaria embevecido com tanta demonstração de 'self-reliance' (auto-confiança).
O tema da infidelidade e da 'fuga com as calças na mão' está muito bem representada no tema “Back Door Man” de Willie Dixon e celebrizada por Howlin’ Wolf. Back door man é aquele que se escapa pelas traseiras, isto é, o que, com a aproximação do marido da amante, só lhe resta fugir...ao cair da manhã:
I am, a back door man
I am, a back door man
Well the, men don't know, but the little girls understand
When everybody's tryin' to sleep
I'm somewhere making my midnight creep
Yes in the morning, when the rooster crow
Something tell me, I got to go
I am, a back door man
Num outro tema, 'Tail dragger', Howlin' Wolf volta ao tema da infidelidade. Neste caso, a proeza do indivíduo é ter sexo com todas as miúdas que apanha pela frente, sem deixar pistas.
I'm a taildragger
I swipes out my track
When I get what I want
I don't come sneakin' back
Uma particularidade muito curiosa nesta letra tem que ver com o seu carácter metafórico, visível desde logo no título: 'tail dragger' é aquele que arrasta a cauda, neste caso para apagar as pistas. O próprio nome Wolf leva-nos para o carácter animalesco e ameaçador do ‘eu’ (o intérprete). Daí que apareça uma referência a caçadores e à esperteza do 'animal' para lhes escapar (não voltar a atacar a mesma presa e não deixar vestígios).
When the mighty Wolf
Make a midnight creep
Then the hunters
They can't find him
Stealin' chicks
Everywhere he go
Then drag his tail
Behind him
I'm a taildragger
I wipe out my track

Tal como um amante pega num cigarro ao saír de casa da amada, ou salta uma vedação com o regojizo de um coito bem-sucedido, o 'mighty' Wolf abana a cauda (pensando talvez já na sua próxima 'vítima') como sinal de que "somebody's daughter" já teve o prazer de o conhecer (biblicamente falando).

When the mighty Wolf
Come along waggin' his tail
He done stole
Somebody's daughter
Uma música que apresenta um aspecto metafórico bastante original e expressivo é "I'm A King Bee" (zangão), de Slim Harpo. Nesta letra, o sujeito afirma ser um zangão que passa o tempo a assediar a colmeia da mulher amada. Ora, o zangão, como é próprio da espécie, tem um ferrão, sendo que o ‘ferrão’ não é mais do que o seu órgão sexual, e a colmeia, os genitais da mulher amada.
Well, I'm a king bee
Buzzin' around yo' hive
Well, I'm a king bee
Buzzin' around yo' hive

O mel, de que se fala neste dístico seguinte não é mais do que o orgasmo...tudo o que ela tem a fazer é deixá-lo entrar...(!). Há notoriamente um trocadilho presente neste dístico, dado que 'come' em inglês significa ao mesmo tempo entrar ou ter um orgasmo...o curioso é que uma coisa pode levar à outra.

Well, I can make honey, baby
Let me come inside

Também esta letra faz referência à enorme capacidade sexual do 'eu'. De facto, sendo jovem, é bem capaz de satisfazer a parceira a noite toda. O zumbido é o próprio acto sexual.

I'm young and able
To buzz all night long
I'm young and able
To buzz all night long

Se ela aceitar ser a sua parceira (rainha), o resultado será um amor nunca antes visto...

Well, I'm a king bee
Want you to be my queen
Well, I'm a king bee
Want you to be my queen
Together we can make honey
The world ever, never, seen

No dístico seguinte ficamos a saber que o 'eu' está a cobiçar uma mulher que já tem parceiro:
Well, I can buzz better, baby
When yo' man is gone.

Num outro parágrafo aludiu-se à censura ao nível da passagem da música dita de 'race' (música negra) nas maiores estações de rádio, mas muitos são os exemplos de censura no que respeita as letras das músicas. "Shake Rattle & Roll", interpretada por Big Joe Turner e escrita por Charles Calhoun, é um óptimo exemplo daquilo a que me refiro. Mas também podia mencionar uma música que Elvis interpretou "One night With You", que no original aparecia como "One Night of Sin"...Ora, 'love' e 'sin' são coisas bem diferentes. Neste excerto 'censurado', o 'eu' demonstra a maravilha de ter visto as carnes de uma mulher quando o sol lhe permitiu vislumbrar o seu corpo através de um vestido curto. Algo bastante inocente, mas a companhia discográfica não arriscou e cortou os versos:
Well, you wear low dresses, the sun comes shining through
Well, you wear low dresses, the sun comes shining through
I can't believe my eyes all that mess belongs to you

Outro tema recorrente prende-se com a infidelidade por parte da mulher. Um bom exemplo disto é a música "Dust My Broom", de Robert Johnson. Também nesta letra podemos ver o uso da metáfora. De facto, dust the broom significa tirar o pó da vassoura. A vassoura é aqui o órgão sexual e, neste caso, face à infidelidade da amante, 'tirar o pó' significa procurar outra parceira...fazer-se à estrada (hit the road).

I'm gonna get up in the mornin',
I believe I'll dust my broom

Aqui, o 'eu' afirma claramente que pretende deixar o lugar vago para o amante da mulher, pois não pretende ter uma mulher que vai com qualquer homem:

Girlfriend, the black man you been lovin',
girlfriend, can get my room
(...)
I don't want no woman,
Wants every downtown man she meet
She's a no good doney,
They shouldn't 'low her on the street

Nos versos seguintes podemos ver que o rejeitado não perde tempo a chorar sobre leite derramado, mostrando interesse em procurar uma namorada que já conhecia de outras andanças:
I'm gon' call up Chiney,
She is my good girl over there
If I can't find her on Philippine's Island,
She must be in Ethiopia somewhere

Por fim, uma música emblemática de Robert Burnside, cantor de blues da zona montanhosa do norte do Tenessee, lavrador durante a semana e cantor aos fins de semana nos bares das comunidades rurais vizinhas. Nestes versos demonstra o ensejo de experimentar sexualmente outras mulheres...diz ele que pretende ver se as raparigas da Georgia são tão boas como a dele...um argumento, no mínimo, curioso:

I don't know, but I been around, tell me them women shake 'em on down
Yes, I'm goin' Georgia line, see if them women sweet like mine
Nos versos seguintes faz-se referência a um atributo sexual das mulheres daquele estado, isto é, a capacidade de serem boas no felatio (jelly roll, em linguagem codificada), e o facto de se mexerem bem.

I don't know, but I been told, them Georgia women sweet jelly roll
Yeah, I don't know, but I been around, tell me them Georgia women shake 'em on down.

Razões suficientes para que o ‘eu’ vá de malas e bagagens para a Georgia…onde as noites são realmente quentes…e muito húmidas.

Noel Petinga Leopoldo

sábado, 15 de janeiro de 2011

ISABEL ALÇADA E LURDES RODRIGUES: FARINHA DO MESMO SACO?

            Para ser objectivo, o saco é o mesmo, mas a farinha é diferente. Lurdes Rodrigues foi a caceteira escolhida por Sócrates para pôr os professores na linha. Como é sabido, exagerou e foi mandada para presidente de uma fundação: o céu de qualquer político quando deixa de o ser. Lurdes era a ‘Pide má’, isto é, a que dava pancada. Isabel Alçada é a ‘Pide boa’, a que dá carinhos para ver se o torturado se rende.
            O Ministério da simpática e carinhosa Isabel Alçada está a prepara-se para pôr na rua cerca de trinta mil professores (uma boa parte deles já com muita experiência de ensino) através de um conjunto de medidas muito pouco pedagógicas. O Sousa Tavares, esse grande ‘fazedor de opiniões’ que só são assim porque não são assado (isto é, interessa é atirar umas coisas para o ar porque o dinheirinho ganho com as suas opiniões da treta, esse é que interessa) é bem capaz de vir aplaudir o pacote de medidas, porque o país está em crise blá, blá, blá. Todavia, não nos esqueçamos que estas medidas irão ser aplicadas para pôr professores na rua. A poupança de dinheiro para consolidar as finanças públicas (que saboroso cliché) já está a ser levada a cabo com os cortes salariais na função pública.
            Os pais parecem estar distraídos, mas este é mais um rude golpe para o ensino público. Estas medidas irão fazer com que um número mais reduzido de professores faça o trabalho deixado pelos milhares que irão para a rua. Com quem é que o Ministério da Educação aprendeu isto? Claro, com os grandes patrões, os que ganharam rios de dinheiro fazendo com que um funcionário levasse a cabo o trabalho que deveria ser feito por dois ou três. Uma das consequências inevitáveis deste pacote de medidas (de entre as quais destaco as alterações curriculares, que não visam um melhor ensino, mas sim menos gastos no ministério) é o aumento do número de alunos por docente. (Estamos tão longe da Finlândia…o modelo de ensino que o Sr. Sócrates queria para a nação)
            E onde é que fica Isabel da Alçada figura no meio disto tudo? No triste papel da pessoa que tem conhecimento e inteligência suficientes para saber que nada disto irá melhorar o ensino público (Alçada foi professora do básico e secundário durante muitos anos, até a carreira literária vir pôr um termo ao mundo fascinante da docência em Portugal), mas que se mantém impávida e sereníssima no seu papel de Durão Barroso: a fazer pela vidinha, a piscar o olho a um tacho que já não está muito longe. A ‘Pide boa’ também irá para o ‘céu’.

            No próximo mês de Setembro veremos Alçada num pequeno vídeo do ‘youtube’ a consolar os professores que irão para o desemprego.

            Isabel estica um sorriso de orelha a orelha, e com um olhar compungido de dor…e, já agora, com um sotaque à Lili Caneças…(no melhor pano cai a nódoa)

Queridos professores, é com o coração apertado que vos venho falar. A vossa vida não será fácil, tenho consciência disso. Eu sei o que estão a sentir, pois uma vez tive de despedir a minha mulher-a-dias, coitadinha, e acho que estive deprimida umas duas horas. Venho aqui lançar-vos um sinal de esperança…há vida para além do ensino, Portugal é um país promissor e em plena expansão económica; todos encontrarão o seu lugar ao sol, não tenho qualquer dúvida disso. Olhem, aproveitem o subsídio de desemprego e façam umas feriazinhas, escrevam livros para crianças…mas não se esqueçam que não podem chamar-lhe ‘Uma Aventura…’ esses já existem. Façam tricot; está na moda e é muito chique…todas as minhas amigas o fazem.
Neste momento de dor, quero sublinhar a ideia de que o novo ano lectivo que está prestes a começar arrancará mais pobre sem vocês. Boa sorte, meus queridos.

Cameraman: Ó Dr.ª, na se vá emora ainda…agor’é o vídeo p’rós putos…os alunos…
Alçada: Ah, é verdade! Olhe, já me esquecia…que cabeça a minha…eh, eh, eh.

Noel Petinga Leopoldo


P.S. Segundo os resultados de um daqueles estudos europeus que Sócrates costuma usar para humilhar os docentes, neste caso o ‘PISA’, os professores portugueses apresentaram muito bons resultados no que concerne à confiança que os alunos sentem relativamente ao ensino por eles ministrado, assim como na qualidade da relação pedagógica professores-alunos. Isto não foi noticiado de forma condigna, obviamente. Os professores estão mesmo a precisar de um lobby na imprensa nacional.

domingo, 9 de janeiro de 2011

CAVACO E AS (BOAS) ACÇÕES

O meu nome é Tó Escamas da Cunha Cabral e sou um mero repórter fotográfico de um pasquim que se chama “Petinga Empalhada”. Escrevo esta carta ao director pois obtive, por mero acaso, um furo jornalístico de inquestionável importância: Cavaco comprou as acções a preço de saldo, na Feira da Ladra, e as suas intenções não foram especulativas, mas sim enternecedoras.
Como é que descobri? Fácil, eu estava lá a vender gravadores de bolso e pude registar a conversa entre Cavaco e o fulano da SLN.

Feira da Ladra, 9 horas da manhã

Fulano da SLN: Acções baratinhas, olhás acções baratinhas…é pegar ou largar…
(Aparece Aníbal Cavaco acompanhado pela sua esposa e restantes membros da família…Maria Cavaco fica para trás a ver uns livros sobre a vida de Cristo…um deles era O Evangelho do Saramago…carrega o sobrolho e num esgar de vómito larga o livro e desata a correr em direcção ao esposo, agoniada. Aníbal não lhe passou cavaco…estava doido com o preço das acções. Aníbal aproxima-se e, fingindo não conhecer o vendedor, enceta conversa)
Aníbal: Está um dia bonito, sim senhor…um dia fantástico para comprar acções a preço de saldo.
(O fulano da SLN reconheceu a senha…só podia ser o sotôr Aníbal)
SLN: Tenho aqui umas belas acções. Estão a um euro. Posso garantir-lhe que ali estão a vendê-las a dois e três euros.
(Os olhos de Aníbal reviraram-se de prazer…Maria já tinha visto aqueles olhos antes, num contexto diferente)
Aníbal: Sabe, sou um avô babado…
SLN: O meu era bêbedo…
Aníbal: Estou com alguns problemas financeiros…os meus netos estão sempre a reclamar presentes. Quando vão lá a casa, aparecem logo com a mão estendida. Comecei por dar-lhes bombons, ovos de chocolate…mas entretanto cresceram e querem sempre mais. Na última vez foi um porche e três I-Pad. Nunca estive tão em baixo…
SLN: Há comprimidos bons para isso…
Aníbal: …eu estou a falar em termos financeiros. O meu instinto de grande economista diz-me que devo ficar por aqui. As outras acções, as mais caras, vão dar menos dinheiro, penso…
(Maria carregou o semblante…nunca vira Aníbal esboçar dúvidas em público...muito menos dúvidas de um calibre tão…imbecil. O fulano da SLN esboçou um sorriso cúmplice)
Aníbal: Aqui está o seu dinheiro.
SLN: Aqui estão as suas acçõezinhas, sotôr.
(Aníbal tenta esboçar um sorriso, mas não consegue...fica-se por um esgar que podia confundir-se com um indício de possível ida à casa de banho. O homem da SLN diz que aquelas coisas acontecem, e indica a latrina mais próxima com o braço estendido. Aníbal não percebeu. Maria ficou incomodada…nunca vira o marido a mostrar total ausência de compreensão em público. Pela sua careta podia ver-se que o marido iria ouvir das boas em casa. Aproxima-se o neto mais novo de Aníbal, montado numa moto 4)
Neto mais novo: Avô, vou levar esta…
Aníbal: Ó meu querido, agora não pode ser, mas daqui a uns aninhos estes papelinhos que tenho na mão podem comprar todas as motos 4 que quiseres. Tens de ter paciência, queridinho.
(Aproxima-se o neto ainda mais novo de Aníbal. Na mão traz um livro muito manuseado)
Neto ainda mais novo: Avô! Quero este livro…gosto do desenho…e custa só 50 cêntimos. A avó está sempre a dizer que temos de ler muito para ficarmos muito espertos.
(A avó Maria, babada, aproxima-se do neto. Quando vê de que livro se trata não tem tempo sequer de pensar em latrinas…os restos do pequeno-almoço mancham a capa onde ainda se podiam ler as palavras ‘Evangelho’ e ‘Saramago’. O pai do rapazito não percebeu…é mesmo um Anibal)

Noel Petinga Leopoldo

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

CAVACO E OS POBREZINHOS

Cavaco Silva (Sr. Presidente, para os amigos) tem andado muito com os pobrezinhos na boca, ultimamente. Fontes próximas da Presidência já revelaram que o Sr. Presidente não se preocupava tanto desde que a sua esposa Maria (reformada como professora do ano zero (!) de Literatura Portuguesa na Universidade Católica) se engasgou com uma cavaca das Caldas, ou quando o Papa vacilou no nome de um dos netos do presidente. No fim, Cavaco suspirou de alívio: o Papa não se enganara. Aliás, para Cavaco, um Papa nunca se engana…nem tem dúvidas…(onde é que já ouvi isto?)
Cavaco foi Primeiro-Ministro de todos os portugueses durante o tempo suficiente para distribuir correctamente os tais dinheiros vindos da Europa, e para fazer as reformas necessárias ao desenvolvimento do país; todavia, como é sabido, algo mais importante se interpôs entre ele e esses nobres propósitos: as obras públicas, a criação de pseudo universidades em todos os cantos do país, e o betão. Altos princípios, portanto. Cavaco tem bom coração; é amigo do seu amigo: catedráticos arrivistas, empresários ávidos de dinheiro e empresas construtoras. (Para além de todos os seus incontáveis feitos, (entre os quais se contam… agora não me ocorre nenhum, tenho fraca memória…) Cavaco ainda ficará na história por ter sido a força motriz que lançou uma nova classe social: a dos burgessos; mais conhecidos como novos-ricos. Nouveau-riche, em Francês, para dar um toque de irrepreensível cultura sociológica.
Há uns anos atrás, Cavaco não estava muito sensibilizado para esta questão da pobreza e dos que têm menores rendimentos. Pode-se dizer que a energia dos seus verdes anos (sim, pois se um agricultor é jovem até aos cinquenta, Cavaco, enquanto Primeiro, estava na força da juventude) se encontrava toda ela dirigida para a criação de dinheiro que seria usado pelos amiguinhos, dele e dos partidos, (para ajudar os pobrezinhos, claro). Sempre a fazer o bem, aquele bom cristão.
Todavia, tempus fugit, como muito bem diziam os latinos, e Cavaco, com a lágrima no canto do seu olho manhoso, lá vai dissertando sobre a pobreza daqueles que recebem cem vezes menos do que ele à custa da sua tri-reforma. (Tadinhos!). Se Cavaco ganhar as eleições, desta vez é que ele vai ajudar os pobrezinhos. As outras hipóteses que teve, não contam. Se ganhar as eleições, não lhe ofereçam cavacas das Caldas, lembrem-se que a senhora Maria é muito engasgadiça. (Tadinha!)
Noel Petinga Leopoldo

P.S. Ruy Belo - In memoriam
SONETO SUPERDESENVOLVIDO

É tão suave ter bons sentimentos
consola tanto a alma de quem os tem
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer bem

Por isso se no verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada
Consola mais viver assim no meio de muitos pobres
que conviver com gente a quem não falta nada

E ao fim de tantos anos a dar do que é seu
independentemente da maneira como se alcançou
ainda por cima se tem lugar garantido no céu
gozo acrescido ao muito que se gozou

Teria este (se não tivesse outro sentido)
ser natural de um país subdesenvolvido

Ruy Belo